quarta-feira, 26 de abril de 2006

A psicopata de quatro anos

Foi numa viagem de regresso do Norte. A Sofia preparava-se para entrar naquelas casinhas de paredes fofas e chão de bolas coloridas que existem nas estações de serviço das auto-estradas.
A única miúda que lá brincava sozinha aproximou-se. Tirou e colocou a chucha da Sofia. Remexeu-lhe os folhos do vestido. Penteou-lhe o cabelo. Quando a minha cria já não estava a gostar nada da brincadeira a miúda decidiu puxá-la para o chão e apertar-lhe o pescoço. Eu observava atrás da rede. Para chegar lá tinha que contornar a casa mágica. Esses dois segundos foram vividos com angústia. Acho que os pais da pequena psicopata, ali a dois passos, não se aperceberam da violência da atitude. A progenitora limitou-se a um simples “Não podes amarrar a menina; ela não quer brincar contigo!!”.
Desde domingo que não consigo deixar de pensar nesta tentativa de homicídio. Acho que mais uns segundos e a miúda se tinha tornado numa psicopata. Se não for aos 4 será aos 24.
Que geração estaremos a criar? Em que se tornarão estes miúdos consumidores de violência que acham que matar um amiguinho é brincar e que acreditam que amanhã ele estará ali para as curvas? Que adultos serão estes miúdos que enfiamos nos infantários aos cinco meses? Ou fechamos no quarto com uma cassete de vídeo à frente?
Assusta-me a resposta.

16 comentários:

Eva Lima disse...

A mim assusta-me cada vez mais. Os pais ainda mais!

Anónimo disse...

desculpem lá, mas isso parece-me um disparate! esperem até as vossas crias fazerem isso, ou parecido, a outros mais pequenos... há sempre uma fase nos miúdos em que se bate nos outros (mais pequenos ou do mesmo tamanho). depois passa. sempre houve, sempre haverá.
se não tiver passado aos 6 ou aos 16 é que é grave!!!

(sei do que falo. tenho 3 miúdos -bom, dois eles e uma ela - ficam em casa comigo até aos 3 anos e meio, não vêem tv, só dvds uns 15 m/dia na sala, são lindos, saudáveis, normalíssimos... e, entre os 2-3 anos batiam de vez em quando noutros miúdos, por dá cá aquela palha. agora são uns paz d'alma (um com quase 6, ela com 4). o mais pequeno tem só 1, mas muito provavelmente fará o mesmo quando chegar a essa idade. depois passa-lhe.

não sejam tão politicamente correctas e obtusas. a sociedade serve para refrear a violência natural, no sentido mais literal do termo, dos homens!!!!

Anónimo disse...

desculpem, não me identifiquei no poste acima. chamo-me marta.

péssima disse...

Há dois anos, tinha o meu piolho quarto anos na altura, cheguei ao infantário e reparei que um dos melhores amigos dele tinha um olho negro: – Ena! L. grande trambolhão! A auxiliar disse muito rapidamente um ‘pergunte ao seu filho’ e ele disse – Ó mãe, eu tenho quatro, ele tem cinco, ele é assim e eu assim (aqui separou as mãos com um palmo de distância ilustrando a diferença de alturas, o meu piolho era um palmo dos dele mais baixo que o L.), ele bateu-me e eu bati-lhe. No olho, piolho! Sim, ele baixou-se e bateu na minha mão.
No outro dia, aqui há coisa de dois meses, uma amiga minha passou cá por casa e deixou-nos um filme de terror. Apesar de até eu ter achado que talvez fosse demasiado forte para os garotos eles insistiram em ver. Acedi. E a menos de meio, muito menos de meio, o meu piolho chorava um: Ó mãe porque é que me ‘obrigas’ a ver filmes de terror? Evidente que reclamei um foste tu que quiseste ver e ele respondeu que não queria ver mais, e não viu. Aprendeu que ainda não pode ver tudo o que lhe apetece.
Isto para dizer que, apesar de não limitar as violências vistas na TV controladamente (antes isto que telejornais, honestamente) os meus filhos não são gratuitamente violentos. São-no porque é natural que sejam em determinadas alturas da vida deles. Tudo é uma aprendizagem, aprendem os limites deles e o dos outros. E prefiro que o aprendam enquanto pequenos. Na adolescência as consequências da experimentação animal natural é muito diferente e problemática.
Vais ver que na próxima vez que a tua miúda se sentir ‘apertada’ vai reagir porque já aprendeu, e não te admires porque ela mesmo irá ‘apertar’ outra miúda ou miúdo qualquer quando chegar a altura dela.
A vida é assim, e ainda bem, quantos mais episódios destes acontecerem mais bem preparada e elucidada entrará na adolescência.

péssima disse...

Eva lima... olha que há coisas mais preocupantes, uma delas, para mim, é o próprio respeito que os pais não têm aos filhos, e aqui não importam as idades de uns e de outros nem a violência que permitem ou não ver.


Antes anonymous, depois marta: não se trata de se ser obtusa e politicamente correcta, trata-se de inexperiência. Tu tens 3 filhos e tenho a certeza que quando ainda só tinhas um não reagias da mesma forma como reages hoje em dia com três. : )

Anónimo disse...

bom, confesso que tens alguma razão, péssima. quando o meu 1º filho era pequeno costumava pensar, ao olhar para os dos outros, "meu deus, espero que o meu não venha a fazer isto!". por acaso o meu 1º filho é daqueles muito grandes para a idade, o que ajudou depois um bocado... ele batia, mas a ele quase ninguém batia. agora passa-se um pouco o contrário... quando os outros lhe batem, naquelas brincadeiras de rapazes, ele ainda pensa duas vezes antes de responder, porque é sempre maior do que os outros, mesmo os que têm mais um (e às vezes dois) anos do que ele...
wakedwoman desculpa lá aquela do obtuso, foi forte, mas irrita-me muito esta coisa de que as crianças pequenas são doces e calmas e gentis e puras e generosas e que quando não o são a culpa é dos pais/sociedade/infantário/di-gi-mon.

aproveito para dizer que tenho sido leitora silenciosa do blogue e que me tenho rido a bandeiras despregadas convosco! tenho pena de não vos conhecer pessoalmente, mas nos sábados e domingos à tarde em que se encontram costumo andar com os 3 selvagens a reboque por aí, a gastar-lhes as pilhas...

marta

péssima disse...

: )
Bem, mais uma razão, pegas nos três reboques e estacionas na casa dos dias da água. Como te deves ter apercebido são ainda raras as vezes que nenhuma, ou alguma, ou uma, ou outra, ou todas não levam atrelados. Os putos adoram aquilo, os pequeninos porque podem andar à vontade pelo chão sem móveis, os mais velhos porque a casa pode perfeitamente ser a casa do harry potter, os intermédios porque berram e ‘futeboleiam’ (raios que não sei como se escreve isto) sem danos alheios. Uns pegam-se e outros são pegados. As meninas dizem que os rapazes são uns chatos e os meninos dizem que as meninas são uma seca... por isto e por aquilo e por o que quer que seja aparece, és, e são todas, bem-vinda.

vaginawoolf disse...

Iélou iélouuu,
Eu só queria dizer - e atenção que também sou iniciada nestas 'lides', pois só tenho uma filha de 2 anos e meio - que também a minha raposa já deu e levou sopapo consciente e inconscientemente, mais forte ou mais fraco. Faz parte, é evidente. E estranharia se não fsse assim. Ainda ontem, em casa de uns amigos onde fomos jantar, deu um pontapé em outra pequena. A minha reacção é, e sempre foi, da mesma maneira: fazer 'pause' à brincadeira, assegurar-me de que a minha filha me estava a ouvir, e explicar-lhe que aquele pé tinha ido bater na outra menina e que lhe tinha feito mesmo mesmo dói-dói. Sinceramente, estou farta de observar maus-tratos, físicos e psicológicos entre miúdos, sem que haja uma explicação dos pais. Ou seja, se alguma miúda tentasse esganar a minha e os pais respondessem com um 'olha lá que isso não é bom', assim de ânimo leve, eu teria tido vontade de esganar os pais, pessoal e lentamente. Obviamente isto não significa que eu passe o meu tempo a mandar papos e a comentar brincadeiras, mas há limites, ou melhor, tenho um qualquer critério, que me faz achar que em certos momentos se ultrapassou ali qualquer fronteira do razoável, e que é preciso alguém lembrar que os outros não são trapos.
Não é uma questão de achar que os miúdos são 'naturalmente bons' ou 'naturalmente maus', mas tão só que faz parte do meu papel - enquanto ainda não têm discernimento para avaliar com rigor - explicar-lhes, fazer-lhes ver a dimensão das suas acções. Acho que muitos pais têm mais que fazer, e isso também me irrita. Alguns até se orgulham do pontapé que os meninos deram, pois um dia vão saber defender-se melhor que os outros.

mai xinti disse...

Parece-me penoso andar à procura das culpas do mundo nos pais ou na televisão, ou no infantário..... as responsabilidades são partilhadas quando passa por traçar limites. Afinal quantas de nós não quisémos já bater em alguém - e quanto não o fizémos já- da forma mais primária? não passamos a vida a limitarmos esse impulso? Estou certa que é isso que tenho de ensinar à Li quando ela bater: que os outros também sentem dor como nós!
Parece que pelo caminho terei de ensinar isso a alguns adultos também...

Mimi disse...

Ena pá que exagero! Tentativa de homicídio? Pequena psicopata? Juro, WW, que só no final do teu post é que percebi que estavas a falar a sério!
Fazes ideia de quantas vezes é que as duas manas já tentaram esganar-se, já se esmurraram, bateram e atiraram com cadeiras e outros objectos perigosos uma à outra? Isso faz delas pequenas psicopatas ou potenciais homicidas? Credo!
É claro que de vez em quando há uma que se magoa e é claro que de vez em quando eu tenho mesmo que intervir e explicar que apertar o pescoço uma da outra não é boa ideia, mas não vejo nestes actos tentativas de homicídio! E olha que as minhas não vêem desenhos animados violentos nem têm nintendos ou game boys! E de quem é a culpa destes amassos entre manas? Minha, que não as sei educar? Que tal da natureza humana?

Olá Marta, bem-vinda! Adorava conhecer os teus 3 selvagens! Eu tenho duas selvagens psicopatas.

WakedWoman disse...

Obtusa??

Perdoem-me, mas essa foi de mais para a minha limitada capacidade intelectual...

"obtuso, adj. que não é agudo ou bicudo; arredondado; rombo, tosco; diz-se do âgulo que mede mais que 90 graus; rude; estúpido; ignorante (Lat. obstusu)"

WakedWoman disse...

Sou mãe de uma menina de 19 meses, verde, muito verde nestas lides da maternidade.

Valem-me umas mães fabulosas, nadinha mais experientes, que de vez em quando peço emprestadas ao domingo à tarde.

Elas sabem quem são.

Comemos pitas shoarmas na madrugada de Lisboa e trocamos 'fraldinhas' e chocolates na casa dos dias da água.

ainda bem que existem

beijos para todas

Claudia disse...

Apesar de se falar muito da violência nas crianças de hoje em dia... Pergunto-me: Não terá sido sempre assim? Antigamente os putos não brigavam?

É óbvio que também me incomoda ver crianças à briga mas todas o fazem! Será instinto?

A verdade é que mais cedo ou mais tarde elas usam a violência fisica como forma de se afirmar.
Suponho que nessa altura seja dever dos pais/educadores ensinar que essa não é a melhor opção, mostrar-lhes o porquê e apresentar alternativas!

WakedWoman disse...

Concordo inteiramente, Cláudia. Bem Vinda!

Ups, tropecei outra vez no meu ângulo de 90 graus...

;)

Claudia disse...

Deparei-me com este blog por acaso... Mas estava a tentar lembrar-me onde já tinha ouvido falar das MMA...
Não sei se foi na aula de massagem de bebés... Ou se foi a enfermeira que ajuda na amamentação!
Vou estar atenta ao que por aqui se passa!

WakedWoman disse...

Gostávamos de te ver na casa dos dias d'água um destes domingos.

Não ensinamos a fazer massagens ao bebé, mas garantimos algumas dicas para sobreviver a seis meses sem pregar olho...

Até qualquer dia
;