Ainda sem crianças, saí do emprego (esquecendo rapidamente a minha triste condição de assalariada) e fui directa a uma livraria com a firme ideia de queimar uns tostões em dois livros: Quando a Mãe Grita, cuja deliciosa descrição tinha lido no Actual do Expresso; e Contos Fantásticos, que fiquei com vontade de comprar depois de ouvir a música de Tinoco no S. Luiz. Diga-se de passagem que um título de Terry Jones já cá cantava em casa - Novos Contos de Fadas. Um bocadinho esventrado pelas diabólicas mãos das duas criancinhas, mas ainda legível.A livraria não tinha nenhum destes livros (what else is new?). Mas em cima do balcão, com grande destaque, estavam outros três, muito bem alinhados: Couves & Alforrecas - Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto e Não é Fácil Dizer Bem - Críticas, Obsessões e Outras Ficções, ambos de João Pedro George; e o novo da Margarida Rebelo Pinto. Comecei a folhear o primeiro. Depois de dar duas ou três boas gargalhadas, procurei o preço: pouco mais do que 8 eurecos.
Folheei o segundo, já mais carote, ainda assim com um preço aceitável. O índice conquista-me logo. Depois abro uma página ao calhas e confirmo o sentido de humor e acutilância.
Ainda quis dar uma vista d'olhos num livro infantil sobre Mozart, mas este vinha com preservativo e os dois empregados impediram-me de o abrir "porque traz um CD". Ironia esta, a de não podermos confirmar o conteúdo de um livro "porque traz um CD". Adiante. Não folheio, não compro.
Resolvo levar o primeiro, Couves e Alforrecas, porque o tipo merece. E também porque me lembro de ter lido uma espécie de apelo de Valter Hugo Mãe para que ajudássemos a nova editora Objecto Cardíaco. O segundo, da Tinta da China, já vai por gula.
Logo a abrir Couves e Alforrecas, George deixa um aviso: "o texto que se segue é embaraçoso para a escritora [MRP] e penoso para os leitores em geral." E é verdade. São tantas as repetições e banalidades escritas pela criatura, que a páginas tantas a coisa torna-se num verdadeiro vómito, para utilizar uma das expressões preferidas de MRP. Felizmente tudo isto é enquadrado por tiradas como "o estilo de Margarida Rebelo Pinto é ainda fértil em intrigantes e medonhos efeitos surrealistas" ou "o que talvez explique a fixação da autora pela espécie canina". É de ir às lágrimas, juro.
Sem nunca acusar MRP de plágio, George chama também a atenção para excertos assombrosamente parecidos com passagens de livros de Saramago ou de Mourão-Ferreira.
E mais: ficando provado que a escritora profissional se auto-plagia incessantemente e que dá erros de português como "a pintora melhor conhecida da minha geração", nomeia os editores e revisores tipográficos co-responsáveis por esta bela merda.
No final, um posfácio com algumas farpas ao meio literário e etc. e tal, mas principalmente com uma explicação sobre a dependência que os escritores têm da crítica - como condição para uma existência de facto.
Uma nota ainda para uma das primeiras conclusões a que conseguimos chegar lendo Couves e Alforrecas: as heroínas de MRP são supostamente mulheres independentes, tão avançadas que até assustam os homens, mas que no final deprimem por não ter marido e filhos.
São 8 eurecos e é obrigatório comprar. Entretanto aconselho uma outra abordagem bem-humorada do caso MRP. Esta é mais antiga, menos exaustiva, mas vai dar ao mesmo. O Adamastor cruza duas crónicas publicadas na Maxim (actual Maxmen). E está tudo lá.
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